O TATU E A SABEDORIA HUMANA
Bar da roça. Como em todos, vende um pouco de tudo: de arreio de cavalo a chupeta, de remédio para gado a doces, de arroz e feijão a veneno para ratos. Mas nenhum produto é mais solicitado que a "marvada" pinga. Uns encostados no balcão. Outros, na pequena e desnivelada mesa de bilhar. A conversa rola solta. O assunto é um rapazinho do próprio lugar que anda roubando as casas aqui do bairro do Monjolo, uma das vilas rurais de Cunha, montanhosa e encachoeirada estância climática no Fundo do Vale Paraíba. Antes, apenas roubava. Agora, dera de agredir as pessoas para roubar, principalmente as idosas que moram sozinhas, e destruir o que não leva, como furar panelas, botar fogo em colchões, arrebentar forros de casas. Um inferno. A peãozada do bar está revoltada. Um deles grunhe com os lábios franzidos: "Quero ver a caveira dele até carruíra (corruíra) fazer ninho dentro". Diante da minha urbana ignorância por não ter entendido nada, e talvez pela expressão de espanto, todos caem na gargalhada. O clima do botequim se transforma, se descontrai. E, com humor e fazendo chacota do meu jeito, passam então a explicar o significado do provérbio. Alguns sitiantes têm o hábito de fincar a cabeça do boi abatido, depois de descarnada, em um mourão. Com o tempo, fica apenas o esqueleto da cabeça do gado, seco e oco. É o lugar preferido da corruíra para fazer ninho. Quer dizer, para chegar ao ponto de o pássaro habitar aquela caveira é necessário que ela esteja seca, definitiva e comprovadamente morta. É o destino que o peão deseja ao desafeto.
Fim de tarde e da resistência para mais uma pinga. Aos poucos, os homens do bar vão montando os cavalos e seguindo em direção às roças. Jair, um deles, cavalga em sentido contrário, em direção à cidade. Demonstra ir preocupado com a sorte de sua casa e dos pertences, devido ao garoto ladrão. Vira-se para o dono do bar, e provoca: "É cumpadre, não vai você mesmo roubar minha casa enquanto eu estiver fora e botar a culpa no ladrãozinho". O dono do bar ri pelo canto da boca: "É, na cacunda (costas) do lagarto até tatu bebe ovo". De novo, boas gargalhadas pelo meu espanto. E mais uma sessão de chacotas e de detalhadas explicações. Tradução: lagarto tem o hábito de "beber" ovo, ou seja, chupar a gema e a clara por um pequeno orifício feito por ele na casca, coisa que tatu - de jeito nenhum - faz. Quer dizer: mesmo que não tenha sido o lagarto que "bebeu" o ovo, a culpa será sempre dele. Mesmo que não venha a ser o rapaz que roube a casa, ele será sempre o responsável pelo fato de ser quem sempre rouba.
Depois desta tarde, minha atenção fica aguçada para os provérbios populares que utilizam hábitos de animais para exprimir um ditado. De longe, o tatu ganha o placar. Afora o já popularizado pelas crianças de qualquer lugar "É, pensa que eu sou tatu?" (bobo), existem ditados mais específicos que retratam a vida da roça. Um deles: "Quando chove, nesta ladeira de terra não sobe nem tatu ferrado". O animal tem força muito grande nas pernas, tanto que uma de suas principais atividades é cavar buracos em barrancos para se abrigar. Se ele, com esta força e, além de tudo, "ferrado" (com ferraduras utilizadas em cavalos) não consegue subir a ladeira enlameada, nenhum veículo conseguirá. Serve para exprimir o estado lamentável que fica a estrada após as chuvas. Outra: "Se achar pau arcado, até tatu trepa". Se existe uma coisa que o bicho não faz é subir em árvores. Mas se tiver um "pau arcado" (tronco em diagonal ou galho rebaixado) até ele consegue subir porque a árvore "se rebaixou", facilitou. Então, quanto mais a pessoa abaixa a cabeça, se submete, não reage, o outro pode abusar, perder o respeito.
O bar agora está vazio, eu e o dono. Os dois sentados na soleira da porta saboreando o clarão da lua cheia. O efeito de umas cervejas a mais me torna melancólico e saudoso de uma ex-mulher. Comento isto com o dono do bar e, ao mesmo tempo, demonstro temor pelo retorno das coisas ruins que aconteceram na relação, caso fosse reativada, segundo meus devaneios etílicos. Mas que sentia saudade, isto sentia, disse ao dono do bar. Sem se voltar para mim, com o olhar dirigido para as mãos que enrolam um "paieiro", arremata: "É meu caro, o tatu sempre corre para o buraco velho". Hoje era dia. Explicação: o tatu é um animal que leva a vida fazendo buracos em barrancos, como já foi dito. Estes buracos passam a servir de abrigo para o animal. O primeiro buraco que faz na vida é para onde ele sempre retorna, arruma, limpa, apesar de ter aberto dezenas de outros depois deste. Em caso de apuro, é para o primeiro que corre a se proteger. Ao pretender retornar a uma ex-mulher, o ditado expressa o desejo de voltar a uma situação segura, já conhecida. O dono do bar, senhor de quase 60 anos, tem no rosto a expressão peralta de criança que faz traquinagem. Trocamos olhares e caímos na gargalhada quando, enfim, percebo o sentido malicioso que o provérbio também contem. O eco de nossas risadas se espalha pelo vale e parece até alcançar a lua que tenta um espaço no céu carregado de estrelas.
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