Preservação, Tradição: Caipira, Sim Senhor
A proximidade e o contato cotidiano com coisas, lugares e pessoas fazem com que percamos a dimensão exata de seus significados reais. Duas pessoas que se olham com os narizes colados verão imagens distorcidas do rosto da outra, a ponto de a imagem vista não corresponder à real. Ao se afastar um rosto do outro, as imagens vão - aos poucos - "entrando em foco". O mesmo tende a acontecer com o ambiente em que vivemos. Por fazer parte do nosso dia-a-dia, pela proximidade, nem sempre damos a dimensão e a importância exatas ao que nos rodeia. Por exemplo: um habitante da cidade de São Paulo é capaz de passar pelo mesmo local por dezenas de anos, a caminho do trabalho, e não se dar conta de que ali é o Pátio do Colégio, embrião da cidade paulistana, onde foi erigida a primeira moradia dos jesuítas sobre uma colina com visão ampla da várzea do rio Tietê para mais segurança contra ataques indígenas. Aquele lugar evoca a fundação de São Paulo, a conquista do interior, um dos principais conglomerados que deram início à colonização do Brasil. Enfim, aquele lugar contem todo um significado. Mas não. Para grande parte dos paulistanos apressados é apenas mais um prédio no caminho. E só. E o mesmo acontece quando se passa pela estátua de Brecheret no parque do Ibirapuera. Para a maioria, é um monumento de pedra de uns homens empurrando um barco. Mas não é só isto. É obra de artista conceituado e que retrata o desbravamento feito pelos bandeirantes para o interior através da única "estrada" disponível na época, o rio Tietê. Da mesma forma, aquelas árvores centenárias e raras no parque da Luz, também na Capital, passam a ser árvores quaisquer como qualquer eucalipto na beira de um barranco. E assim os exemplos podem se multiplicar ao infinito.
É muito provável que aqui em Cunha passemos pela igreja Matriz, pelos casarões remanescentes ao redor dela, pelo antigo prédio da Prefeitura, pela igreja do Rosário, como se fossem apenas algumas construções físicas. Talvez não vejamos que a igreja Matriz é o símbolo maior da opulência da cidade na época colonial em função do estilo da construção e das dimensões; que os casarões simbolizam a riqueza da arquitetura colonial. A Festa do Divino não é apenas uma festa com comida para todos, muita alegria, missas e procissões: é a manifestação maior e mais singela da religiosidade do povo do lugar. A Casa do Artesão é o antigo matadouro, nascedouro de um trabalho fértil e de nível internacional dos nossos artistas, transformando Cunha em um dos principais pólos de cerâmica de alta temperatura do país.
Para a população cunhense em geral, para os que lidam com o comércio ou serviços, e principalmente para os que se dedicam ou pretendam se dedicar ao turismo - e aqui me dirijo em especial aos jovens - penso ser necessário não só ter todas as informações sobre a história de nossa cidade, o patrimônio histórico e cultural, o meio-ambiente, mas fundamentalmente - através do reconhecimento da importância de todos estes aspectos - lutar e trabalhar pela preservação deles, ou pelo que ainda resta. Isto porque somos fruto de todo o conhecimento anterior da Humanidade, de toda a História.
Hoje somos a síntese das conquistas, dos hábitos, da cultura dos nossos antepassados. Neste sentido, evocar e preservar o passado não é ficar atrasado no tempo, não é ser retrógrado. No presente, temos que preservar o que o passado construiu para vislumbrar um futuro melhor. É um direito e obrigação de todos preservar este patrimônio histórico, natural e cultural. Não fosse pelo fato de a luta por esta preservação representar a mais legítima ação da cidadania, devemos batalhar neste sentido pelo menos pelo fato de que é nela que reside a maior riqueza econômica e praticamente a única perspectiva da cidade para o futuro: o turismo. Principalmente para os jovens que vivem uma situação de total falta de perspectiva de trabalho, estudo, lazer e cultura e que vão encontrar situações constrangedoras e até de marginalidade na busca de realização em cidades maiores, em função do desemprego que impera no país. O futuro é aqui.
Se não, vejamos: Cunha não oferece opções para estudo e trabalho. Estudo, além do 2º grau, só em outras cidades. Possibilidade de trabalho praticamente só existe no comércio ou na Prefeitura, áreas em que não há mais vagas. Então, o mercado é restrito e o salário, aviltante. Existe ainda o trabalho na roça, ingrato e mal remunerado até mesmo para quem é proprietário de terra. Tendo-se como referência que o ideal para os jovens seria desenvolver alguma atividade sem precisar sair da cidade e que esta atividade lhes dessem condições dignas de sobrevivência e de desenvolvimento social e cultural, a saída mais importante é o turismo.
Cunha hoje é semelhante à quase todos as cidades do interior paulista há algumas décadas: os jovens não tinham nenhuma perspectiva de trabalho ou de educação. Ficavam na marginalidade, trabalhavam de sol a sol em trabalhos braçais, sem qualificação e sem possibilidades de ascensão social, viviam na miséria material e cultural. Os que tinham alguma posse saiam para estudar ou trabalhar na Capital. Os mais abastados iam estudar na Europa ou Estados Unidos. Formados, não retornavam às suas cidades para exercerem as profissões nas quais se especializaram ou para dar continuidade aos negócios da família. Todos, sem exceção, sentiam vergonha de ser do Interior, de ser caipiras. Além disto, não tinham perspectivas nas suas cidades de origem. Hoje se orgulham por viver em cidades cuja qualidade de vida superou em muito a da Capital, se formam em suas próprias cidades em faculdades de nível, arrumam emprego digno ou se interessam em dar continuidade aos negócios da família. Hoje a situação se alterou para melhor, apesar de as desigualdades e pobreza existirem, como em qualquer cidade brasileira.
Mas as cidades paulistas onde aconteceram estas transformações têm hoje estrutura própria: escolas, faculdades, possibilidades de trabalho, de lazer e cultura (cinemas, livrarias, shoppings, etc). São regiões onde as topografias e as facilidades de acesso por estradas propiciaram o surgimento de uma atividade agropecuária fértil: plantações de cana para a produção de açúcar e álcool combustível, cultivo de laranja para a produção de suco para exportação, criação de gado de leite e corte com tecnologias avançadas (Ribeirão Preto, São José do Rio Preto, Presidente Prudente, para dar alguns exemplos).
Mas em Cunha a realidade é outra: a topografia acidentada é imprópria para grandes culturas mecanizadas. As plantações de milho e de feijão são quase que apenas para subsistência, com raras exceções. O terreno acidentado também é impróprio para pecuária em escala industrial. Some-se a isto as dificuldades de acesso: a estrada Cunha-Guará foi asfaltada apenas na década de 60 e é, até hoje, o único acesso asfaltado, além de a cidade não estar a caminho transitável (asfaltado) para nenhuma outra região.
Mas esta mesma topografia e dificuldade de acesso que barraram o desenvolvimento são hoje nossos grandes aliados pela razoável preservação que propiciaram ao meio-ambiente, à cultura, hábitos, em parte do patrimônio histórico. Por isto, não podemos permitir que seja destruída a mais importante fonte de riqueza que existe para o futuro, já que o desenvolvimento do turismo interessa não só aos que pretendem se dedicar diretamente a este ramo de atividade, mas a todos. Sem exceção: aos habitantes da cidade pelo aumento da oferta de empregos em todas as áreas, ao comércio, à rede hoteleira, aos pequenos fabricantes de queijos, doces, artesanatos, aos pequenos e grandes prestadores de serviços e também ao poder municipal pela divulgação da cidade em todo o país através dos órgãos de imprensa e pelo aumento da arrecadação de impostos que, ao final, reverte em obras e serviços que beneficiam a própria população, tanto da cidade como da área rural.
Para isto, é necessário preservar. Preservar, segundo o dicionário Aurélio, é "livrar-se de algum mal ou dano". Agora, preservar não pode ser uma atitude a ser tomada após a destruição. É o pior caminho e, às vezes, sem volta. Existem coisas que, depois de dizimadas, não se recuperam. Alguns segundos são suficientes para uma moto serra deixar arruinada no chão uma árvore que levou às vezes meio século ou mais para se formar. É também o caso de quase todos os casarões demolidos ou descaracterizados em Cunha. Estas situações são irreversíveis como a morte. São, de fato, mortes. E aquilo que é recuperável, nunca se recupera integralmente. Em certas situações, leva-se mais de um século para reavivar o que foi destruído em apenas alguns anos. Exemplo: a poluição do rio Tietê. Outro exemplo: a Mata Atlântica que foi derrubada por interesses de madeireiras, palmiteiros, especulação imobiliária ou para dar lugar a pastos e lavouras. Então, a ação tem que ser antes do início da destruição. Nos casos em que ela já começou, deve ser estancada e restaurada.
Preservar é exercer a cidadania. É um direito de todos ter e exigir condições dignas de vida. E isto não é só lutar pelo direito ao trabalho, à educação, à saúde. É lutar pela qualidade de vida, pela preservação do meio-ambiente, da cultura, da história. Preservar também é um dever desta mesma cidadania e pode ser exercido nas mínimas atitudes: não matar animais e denunciar quem o faz; não desmatar e não permitir que desmatem (principalmente em locais de nascentes); propagar técnicas preservacionistas de agricultura; não jogar lixo, latas, garrafas nas matas e águas e tampouco nas ruas da área urbana; não demolir prédios históricos e agir, orientar e informar contra as intenções de quem pretenda demolir ou alterar as edificações. Preservar também é valorizar os artistas, artesões, os valores da população rural e urbana em suas manifestações. Enfim, a ação de preservar vai dos mais grandiosos projetos envolvendo o poder municipal e os empresários, até a mais simples ação no dia-a-dia, como orientar o filho a não jogar a garrafa vazia de refrigerante nos rios.
Enfim, devemos preservar porque é obrigação de todos. E só agindo assim é que estaremos preservando também um futuro melhor, não só pela manutenção de nossas riquezas e da nossa qualidade de vida, mas também pela manutenção de uma fonte de trabalho que garanta uma vida melhor para nossos filhos.
O lavrador cuida da roça de feijão arando a terra, adubando, irrigando, eliminando pragas. O criador de gado cuida de evitar doenças, aplica injeções contra berne e outros males, dá um bom pasto com água, sal. O que eles objetivam com estes cuidados? Objetivam preservar suas riquezas, suas fontes de subsistência e as dos seus filhos. Então, preservar - no sentido mais amplo do termo - é, além de tudo, fazer com que a matéria-prima do trabalho com turismo não se esgote. E em que se constitui esta matéria-prima? Na natureza, no patrimônio histórico, nas manifestações culturais e religiosas, na arte, na artesania culinária, na memória, na cerâmica, nos criatórios de truta, na fartura de possibilidades para o desenvolvimento dos vários tipos de turismo (ecológico, histórico, cultural, rural, alternativo, ciclo-turismo, off-road). Isto é o fundamental. O resto vem por conseqüência.
E o que distingue Cunha de outras cidades? É que aqui existe, além de tudo o que já foi dito, as tradições, a calma, montanhas, cachoeiras, pôr-do-sol de serena majestade, céu claro que chega a dar um porre de azul. Para os que fogem da correria, tensão, estresse, medo, trânsito, poluição, desconfiança da própria sombra numa sociedade de disputas cruéis, da competição desenfreada dos grandes centros urbanos, o campo simboliza a paz, a liberdade, a calma. Coisas que não têm preço. E o turista se maravilha e valoriza o modo de vida caipira, com o frango pastando no terreiro, com o leite tomado ao pé da vaca, com a comidinha feita no fogão a lenha, com a conversa jogada fora na varanda de alguma casa. Tudo isto com que a gente convive com naturalidade vale ouro para quem mora nos centros urbanos.
A palavra caipira passou a ter sentido pejorativo em função de diversos fatores, que não vem ao caso discutir neste momento. Até quem nasce na roça assimilou esta carga negativa e rejeita ser designado por caipira, ao contrário de quem nasce no litoral e tem orgulho em ser chamado de caiçara. Mas o pessoal da roça, afora este sentido dado por alguns intelectuais preconceituosos, tem a característica dignificante de ser solidário, simples, bem-humorado, engenhoso. É o sitiante, o roceiro, o camarada. Este modo de vida que uma parte da intelectualidade ironizava e depreciava é o mesmo que hoje pagam para desfrutar, porque a paz, a calma, o respeito pelo outro, a beleza da natureza, a solidariedade, são artigos em extinção, mas que sobrevivem em alguns grupos sociais, como o do caipira. Então, somos caipiras, sim senhor.
Além do patrimônio histórico e dos recursos naturais, deste modo de vida rústico e singelo que tanto prazer causa aos que vivem a vida conturbada dos grandes centros urbanos, o município oferece uma estrutura hoteleira de charme, bom gosto e conforto. Além disto, a própria área urbana é simpática e agradável, com as ruas limpas se esparramando por uma colina e suas encostas. Os prestadores de serviços estão, aos poucos, se aprimorando; o comércio começa a se modernizar, nas instalações e no atendimento.
Talvez não tenhamos a dimensão exata de tudo que já existe e está aí ao nosso dispor e que oferece um campo fértil de trabalho. É só se dedicar, estudar, se informar e se aprimorar. Talvez esteja no momento de nos distanciarmos um pouco para podermos ver com nitidez e valorizar a riqueza que está ao nosso dispor, a um palmo do nosso nariz.
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