Planeta caipira
Nem tão moderno como um foguete sideral, nem tão urbano como o Carnaval, o Brasil de contrastes flagrantes e de inocência pueril teima em se mostrar na simplicidade religiosa de seus rincões esquecidos. A cidade de Cunha, por exemplo, encravada em uma esquina esquecida entre as metrópoles de São Paulo e Rio, e as cidades de Guaratinguetá e Parati, perdida na serra do Mar, vive sempre na segunda quinzena de julho (exatamente no terceiro domingo) o seu momento de glória com a esperada Festa do Divino. Festa mesmo, de religiosidade e fervor, de contentamento e abnegação. Pouco importa àquela gente simples que está em um lugarejo ermo, já chamado de cidade morta por Monteiro Lobato nos anos 30. Com a bandeira do Divino eles imaginam estar no centro do universo, num astro de simples felicidade. Eles estão no planeta caipira.
A cena seguinte é comum durante a Folia do Divino, que esmola por todas as casas do município meses antes da Festa: um grupo de homens a cavalo passa pela porteira e atravessa o terreiro espantando as galinhas. O dono do sítio deixa a enxada de lado e abandona a roça de feijão. À frente dos tropeiros, o cavaleiro carrega um pequeno cetro, com dezenas de fitas coloridas, encimado por uma espécie de nicho de flores artificiais, onde repousa uma pequena pomba prateada, a materialização de Deus através do Divino Espírito Santo. O sitiante recebe a bandeira e a conduz orgulhoso para dentro de casa. Os cavaleiros apeiam e com duas violas de dez cordas, caixa e triângulo iniciam a cantoria pedindo prendas e bênçãos sobre o sitiante hospitaleiro. Há mais de 250 anos, a Festa do Divino começa assim todo mês de outubro, nove meses antes da apoteose, diante da Matriz. Os tropeiros garbosos visitam, em Cunha, todas as cerca de 5.300 residências do município e as oferendas angariadas (centenas de bezerros, leitoas, milhares de frangos e toneladas de milho) são encaminhadas ao padre, que dá destino a tanta riqueza, distribuindo entre os mais carentes da comunidade.
O domingo do Espírito Santo é de longe o mais animado do calendário. Desde a madrugada, quando a "furiosa" (a banda municipal Emílio Núbile) ataca a Alvorada com vigor e chama a população para o início da festa, tocando marchas e desfilando pelas ainda escuras ruas da cidade. Deste momento em diante, até a noite, uma grande parte dos moradores da área urbana e das centenas de bairros rurais que cobrem os 1.440km2 do município, participam das manifestações campais, procissões, rezas e bênçãos que acontecem na cidade, intercaladas com brincadeiras profanas como agarrar a porca ensebada, dançar a congada ou celebrar o Espírito Santo com o mais puro destilado de cana. Para o padrão moralista do passado, uma fusão proibida. Tanto que em 1761, o visitador do Santo Ofício, assustado com os hábitos que presenciara, qualificou os festejos como "escandalosos". O registro está no primeiro livro do Tombo da Matriz de Santo Antônio de Guaratinguetá. A festa foi proibida. O mesmo ocorreu na década de 20 e novamente entre 1939 e 1944. "Mas não adianta. Quando ela retorna, volta com a mesma fé e a mesma força", explica o padre José Verreschi, 41 anos, ex-pároco da cidade. Até o pastor Osmar Rosa dos Santos, 32 anos, antigo responsável pela Igreja Metodista, bastante avessa à adoração de imagens, respeita a religiosidade popular: "A gente trabalha para o bem povo. Pouco importa que tipo de piano ele toca".
E entre as danças da congada e moçambique, herança viva do sincretismo dos escravos, os habitantes da cidade de Cunha celebram a sua religiosidade com um almoço para cerca de 10 mil pessoas. Um "afogadão" preparado e servido por cerca de 100 voluntários, que preparam feijão, arroz, carne, batata e macarrão. "Tenho promessa de trabalhar para o Divino para ver se saro da diabete e se meu filho melhora da dorna coluna", justifica Idalina Anselma, nada menos que 78 anos de idade e a fé derramada no futuro. Entre os jovens, pouco importa se eles se atrapalham com os bastões que desenvolvem o ritmo, símbolo do combate entre cristãos e mouros, ou com os olhos vendados tentam acertar com um pedaço de pau um pote de barro dependurado, ou ainda se estatelam no chão para agarrar uma porca solta na praça com o corpo ensebado. Tudo é uma santa alegria que só termina quando os andores dos santos padroeiros dos bairros rurais irrompem na procissão que sobe a ladeira em direção à Matriz. Homens, mulheres e crianças carregam nas mãos o que de melhor possuem em casa e no trabalho. No coração, o desejo de um sonho cumprido. Vale tudo: pés de cana com folhagem, galhos de uma ameixeira carregada, pratos com alface, cenoura, repolho, pães e bolos. O sol do crepúsculo garante que o Divino ilumina a todos. Ilumina o planeta caipira.
A fé de dona Coração
Os 73 anos de Felizina Coração Teixeira não lhe arrancaram a energia de descer as ladeiras de Cunha abraçada à sua bandeira do Divino. O coração, que o sobrenome já carrega, bate acelerado e se enche de força para chegar à igreja do Rosário. É de lá que sai a procissão rumo à missa campal de encerramento que essa ex-parteira não perde desde moça. No meio da multidão colorida e animada, ela traz a fé estampada nos olhos quase escondidos pelas rugas. Sua crença não precisa de sisudez. Para a velha parteira, o último dia da Festa do Divino deve ser sempre uma mistura harmoniosa de descontração e testemunho. "Festa do Espírito Santo é de alegria", ela ensina.
Nascida em Sertão da Vargem Grande, lugarejo perto de Cunha, Felizina perdeu a conta de quantas crianças ajudou a nascer durante 40 anos. Orgulhosa da bandeira que ganhou há quatro anos de um padre, não admite pendurar nela fotos ou fios de cabelos, e a dar nós nas fitas para pedir saúde para os parentes doentes. "Dou meu testemunho com o amor. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo até a eternidade e mesmo depois dela". Dona coração segue o cortejo. |