A MATANÇA DAS ÁGUAS
Cunha ainda é
um berçário de águas,
mas o volume dos rios diminuiu em mais
de 50% nas últimas décadas, em algumas regiões.
O desmatamento desmedido é uma das principais causas.
A saída é o manejo sustentável, a opção por atividades
alternativas e rentáveis que não agridam a natureza.
O pedreiro José Alarico de Toledo, 42 anos, olha para o fio de água que se arrasta, tênue. O que ele conta parece até não ser verdade. Mas é. Ali, a água era tanta e tão profunda na época de moleque, lá pelos 10 anos de idade, que costumava mergulhar e nadar com a criançada do bairro do Monjolo. Hoje, a água é tão pouca "que se um boi bebe pra cima, seca pra baixo", afirma ele. A poucos metros dali, no curso principal do rio onde o fio de água desemboca, a profundidade chegava a atingir uns 4 metros. Hoje é possível atravessá-lo caminhando sobre um leito de areia com a água atingindo a altura do joelho. E Margoso, como é conhecido o pedreiro, desfila histórias da degradação: os lambaris e bagres que pescavam hoje nadam apenas na memória; o vão oco e rochoso com cerca de 5 metros que existe entre o leito do rio e a ponte da Paca, a alguns quilômetros daquele ponto, rio abaixo, era tão repleto de água que um dos moradores chegou a instalar um gerador que fornecia energia elétrica para consumo da fazenda. Hoje, a água que corre ali mal dá para abastecer uma casa.
O local onde o pedreiro nadava quando moleque e que agora olha desolado é um dos milhares de fios de água, minas, riachos, ribeirões, córregos e rios que se enfileiram, engrossam seus leitos e esquadrinham as terras de Cunha. Assim como as veias marcantes no organismo de um bebê fazem florescer a vida e a beleza em uma criança, estes cursos de água irrigam e concedem vida fértil às terras deste município abençoado pelas águas.
Estas "veias" formam quatro bacias hidrográficas: a do rio Paraitinga, cujo embrião salta no município de Areias; a do rio Paraibuna nasce no bairro rural de Campo Alegre; a do rio Jacuí engrossa o Paraitinga e a do rio Mambucaba. Esta última é a única delas que está dentro do Parque Nacional da Serra da Bocaina e também a única que desce das escarpas da serra em direção ao mar. As demais correm para o interior do continente e vão desembocar na represa da Cesp no município de Paraibuna. Dali, começa a engatinhar o rio Paraíba do Sul a caminho da cidade de São Paulo até o município de Guararema, onde decide inverter o curso em direção ao Rio de Janeiro e vai desembocar no Atlântico quase na divisa com o Espírito Santo. Assim, as águas que nascem aqui são responsáveis pelo maior parte do abastecimento de água de quase todas as cidades do Vale do Paraíba paulista e fluminense e por 80% do abastecimento da cidade do Rio de Janeiro, por exemplo.
Então, se as águas aqui de Cunha são tantas e tão importantes, por que diminuiu tanto o seu volume? "Por causa do desmatamento. Primeiro, eram as madeireiras. Depois, a derrubada da mata para o cultivo de pastagem e plantação de milho e feijão. E as queimadas que deixam o solo mais desprotegido ainda, deixa a terra nua", argumenta o agricultor Rubens de Oliveira Ferraz, 50 anos, ex-presidente da extinta Associação dos Moradores e Amigos dos Bairros do Monjolo (Amabam), que abrange 14 bairros da região onde se localizam cerca de 270 sítios e fazendas, sendo que apenas cerca de 10% são de propriedade de "são-paulinos", como os moradores da região costumam se referir aos proprietários que não são nascidos na região. Entre os objetivos da Amabam estava a preservação da micro-bacia do Monjolo, uma entre as 91 que se espraiam pelo município. A associação se desfez pelo desinteresse da própria população, vítima da desinformação.
O engenheiro florestal Roberto Starszinsky, responsável pelo Núcleo Cunha-Indaiá do Parque Estadual da Serra do Mar, também ressalta o quanto o desmatamento é prejudicial: "A queda da água da chuva é amortecida pelas folhas das copas das árvores e escoa lentamente por causa dos obstáculos no solo, como galhos, raízes, vegetação, folhas secas. Com a velocidade reduzida, á água então se infiltra no solo. O que garante a água dos rios na época da seca é a que se infiltrou na época das chuvas. Com a retirada da vegetação, a chuva cai com violência no solo e, como não existem obstáculos, corre com velocidade para os rios e, por isto, não tem condição de se infiltrar no terreno. Assim, os efeitos do desmatamento são enchentes na época das chuvas e seca na estiagem. A floresta e a mata promovem a regularização do ciclo hidrológico como se fosse uma esponja: fica encharcada na época das águas e, na seca, vai liberando a água paulatinamente", conclui Starszinsky. O engenheiro ressalta ainda que outra grave conseqüência do desmatamento é a erosão que provoca o assoreamento dos rios, com a diminuição do volume das águas e o conseqüente desaparecimento dos peixes. E finaliza: "É necessário utilizar os recursos naturais de forma a satisfazer as necessidades das gerações atuais sem comprometer a sobrevivência das gerações futuras".
A microbacia do Monjolo é uma das mais importantes do município em função de ser a responsável pelo abastecimento de água da cidade de Cunha. Além disto, é nesta microbacia que existe um vale de pequenas cachoeiras e as duas mais bonitas e importantes quedas de água do município: as cachoeiras do Pimenta e do Desterro. "A gente precisa encontrar um caminho para melhorar a renda das pessoas e preservar as matas e as nascentes que existem", afirma Rubens, ex-presidente da Amabam. E um dos caminhos, segundo ele, seria o desenvolvimento da apicultura, piscicultura, caprinocultura, fruticultura, plantação de eucalipto para comercializar e para o consumo próprio, evitando a derrubada de árvores da floresta para ser utilizada em cercas, currais, paióis, etc. "Precisamos de novas idéias para produzir outras coisas e para cuidar das águas, das nascentes, do solo", argumenta Rubens.
O município tem, como já foi dito, 91 microbacias, todas elas já mapeadas pela Secretaria Estadual da Agricultura. "O governo vai priorizar aquelas que são organizadas", afirma o engenheiro agrônomo Osmar Felipe Júnior, 32 anos. O município tem 14 associações na área rural, mas estão em atividade apenas quatro. Segundo Osmar Felipe, o Programa tem o objetivo de fortalecer a organização da população, a conservação do solo e das águas, a melhoria da produtividade das culturas da região, a introdução de novas culturas e a melhoria de qualidade de vida da população rural. Segundo ele, a Prefeitura vai dar atendimento às reivindicações da população da microbacia escolhida, mesmo que não tenham relação direta com o problema ambiental, como na área de saúde, educação: "Não adianta querer discutir antes o problema ambiental se a população tem necessidades mais urgentes. Depois do atendimento destas necessidades, fica mais fácil implantar os projetos do Programa", argumenta Osmar Felipe.
O prefeito de Cunha, engenheiro João Mendes, afirmou que o projeto de microbacias é uma prioridade de seu governo e que sua administração vai dar total apoio fazendo cascalhamento de estradas, saneamento, cursos profissionalizantes, desenvolver projetos de piscicultura e plantação de uva, a criação de uma feira livre para que os produtores vendam diretamente seus produtos ao consumidor, sem atravessadores. O prefeito destacou a importância das associações "para ajudar a resolver os abacaxis e para fazer o levantamento das prioridades dos bairros". E concluiu: "Precisamos sair do particular e identificar as necessidades coletivas para fazer um governo de comunidade. A gente precisa deixar de dizer ‘eu preciso’ e começar a fazer reivindicações do tipo ‘nós precisamos".
"Nós precisamos", ressalta Rubens, o ex-presidente da Amabam, "é primeiro um posto médico na região para atender as necessidades mais urgentes da população. Depois, o principal objetivo é recuperar as cerca de 3 mil nascentes e olhos de água que existem na região. E estamos recolhendo informações para implantar um projeto florestal".
Talvez seja este o início do fim da matança das águas.
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