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No dia em que eu vim me embora
Não tinha nada demais. Tinha o vento a favor. Havia comprado o sítio
em Cunha sem que tivesse planejado comprar sítio, construído a casa
sem que estivesse nos planos mudar de cidade. Tudo aconteceu sem
planejamentos e intenções. Coisas do destino ou sabe-se lá do que.
Era 1993. Dois anos depois, ao sair do último emprego, sentia um
grande desencanto com o jornalismo, do que jeito que passara a ser
praticado. Morte da reportagem, imprensa oficialesca, sem investigação
e denúncia, império do release, matérias feitas em série como em
uma fábrica de salsichas, visões áridas, estatísticas, sem contemplação
do ser humano.
No período entre a compra do sítio e a saída do emprego mesclava
o trabalho em São Paulo com a construção da casa, nas rápidas viagens
de fim de semana a Cunha. Nas conversas de bares na pequena cidade
ou nos humildes armazéns da zona rural, nas visitas às casas e nos
passeios aos pequenos vilarejos da roça, o contato com novas realidades,
novos cenários, novas pessoas. E a descoberta de novas histórias,
de uma nova cultura, de um novo e prazeroso relacionamento com os
moradores. Tudo em contraste relevante com a metrópole, onde nasci,
vivi, trabalhei. O fascínio por tudo isto era grande. Destes contatos
e histórias surgiu a vontade de uma nova experiência: escrever um
romance ambientado naquela realidade, a primeira entrada no mundo
da ficção. Fazia quase 30 anos que praticava o exercício de escrever,
mas sempre em cima de fatos e acontecimentos.
Somando tudo: desencanto com o jornalismo, a saída do último emprego,
um dinheirinho no bolso, a casa semipronta (mas já em condições
de morar), as primeiras linhas do romance se delineando nos breves
intervalos do cotidiano de São Paulo. Pronto. Lá vou eu. Bye-bye
tudo.
E vim me embora com o projeto de passar um ano com dedicação exclusiva
ao romance. O dinheirinho dos direitos trabalhistas não era muito,
mas o suficiente para não ter outra preocupação do que viver plenamente
a experiência da liberdade proporcionada pela literatura. E aqui
no sítio tudo era a favor: as cachoeiras rodeando a casa, a mata,
o silêncio, o sagrado isolamento, as montanhas, o céu que chega
a dar um porre de azul. Só uma coisa não foi a favor: a realidade.
O dinheiro acabou, parei o romance quase concluído, fui atrás da
sobrevivência, retomei o romance, parei novamente, fui atrás da
sobrevivência. Em 2000, recebi uma pequena herança e construí uma
pousada com o claro objetivo de ela não ser um fim, mas o meio através
do qual fosse possível atingir o objetivo maior: ler e escrever.
Passaram-se quase cinco anos de trabalho árduo para que a pousada
se estruturasse, ficasse conhecida, possibilitasse a sobrevivência
e, enfim, eu alcançasse a paz e tranqüilidade para terminar o romance.
Penso que assim como o destino me trouxe para cá e me privilegiou
com um pedacinho de terra tão sagrado (sem que eu houvesse planejado
ou pretendido), o mesmo destino designou a hora certa para concluir
este sonho de liberdade. Era inexorável e foi agora. O livro chama-se
"Na Cacunda do Lagarto" e só falta um pequeno detalhe: editá-lo.
Vamos ver. Mas os percalços desta batalha nunca me tiraram a felicidade
de estar aqui, mais perto da vivência do que da sobrevivência.
Nota:
O título deste artigo e a primeira frase são de uma música de Caetano
Veloso.
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